Olhar de menino
“O edifício se misturava nos raios de sol
Que desciam e o cobriam completamente,
Nenhuma porta ou janela se lhes escapavam.
Tudo luz, muita luz naqueles quartos de hotel.
Um menino olhava pela janela
E via o mundo em suas linhas retas,
Vagando no meio da Baía da Guanabara.
Enquanto sua mãe dormia, cansada,
Ele via o mundo em novas formas,
Diferentes de quaisquer outras que já vira antes.
Nas pontas dos dedos, sem acordá-la, pegou uns trocados
Da bolsa da mãe, pendurada em uma cadeira...
Desceu, passando pelos amplos saguões de entrada,
E foi comprar espadas de Luz, vendidas na calçada.
Era o menino, procurando lutar, procurando viver,
Enquanto sua mãe dormia no quarto do hotel.
Ele vivia como lutadores antigos; era domador de leões.
Empinava o sabre pelas janelas
E a luz que dali refluía,
Misturada à luz do sol, ia até a baía
E quase iluminava o fundo do mar e seus peixes.
Aos poucos, a luz foi se espalhando e se refletia
[em tudo.
Toda a cidade, agora, estava envolvida pela luz do sabre
[daquele menino.
Tudo agora era a luz e a luz do menino e seu sabre
[eram tudo.
Sua mãe, de repente, acorda e a luz subitamente se esvai.
O menino esconde o sabre em uma mala de viagem,
A luz se apaga no quarto de hotel, no prédio e na
[cidade inteira.
Em segundos, falta luz em tudo...
A mãe tira uma vela da valise e a acende.
Vem a luz e, por sua sombra de luminosidade,
Vê-se o triste olhar daquele menino,
Que agora, deitado na cama, olha fixamente para a janela
[escura.
E já não vê mais nada.
Fecha os olhos e já não vê mais nada...”
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