quarta-feira, 20 de junho de 2012

"Deus da Carnificina"




           Assisti ao filme “Deus da Carnificina”, de Roman Polanski. Antes de assisti-lo já sabia que se tratava de um filme que iria metaforizar a sociedade, mas qual não foi a minha surpresa ao perceber que o filme faz isso de uma maneira aparentemente singela, mas profundamente verdadeira.
            Em síntese, a história do filme é a de dois casais que se encontram para discutir uma briga que envolvera dois meninos, cada um deles filho de um dos casais. A aparência de cordialidade entre os casais esconde toda uma rede de sentimentos e pensamentos escusos e escondidos, os quais aflora aos poucos. Há ainda a dinâmica da personalidade de cada um dos quatro personagens e dos casais.
            Em Nova York, o casal Nancy e Alan Cowan (Kate Winslet e Christoph Waltz) vai até a casa de Penelope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly). As conversas revelam inicialmente a faceta sociável dos personagens, mas, em seguida, emerge o lado escuro de cada um deles. Nancy é, de início, muito sociável, educada e simpática. Alan, frio, preocupando-se o tempo todo em falar ao celular para resolver negócios da empresa em que trabalha como advogado. Penélope - extremamente racional e rígida - é a mais agressiva dos quatro. Por último, Michael - o mais relaxado dos quatro - é um típico bonachão, por assim dizer. Cada um deles é um arquétipo de quatro personalidades humanas.
          A personagem Nancy tipifica a mulher falsa, que sempre tem uma palavra simpática e agradável para dizer, mas que, no fundo, não pensa em nada disso e vive em conflito com o marido, que julga distante. Sofre ainda de problemas de saúde em razão desse conflito que não se resolve. Interessante, neste aspecto, que, no filme, Nancy vomita, ao não agüentar mais as inúmeras ligações de trabalho recebidas pelo marido, distante da situação vivida ali. Por outro lado, tem-se Penelope, como a politicamente correta,  que pretende fazer a conciliação dos meninos, mas desde que eles “entendem honestamente que devem se reconciliar, não admitindo que os pais do agressor forcem o garoto a isso”. Dominadora em relação ao marido. Aparentemente preocupada com a situação humana de cada um, vindo, contudo, à tona seu egoísmo, quando, após o vômito de Nancy, preocupa-se muito mais com as revistas raras dispostas na mesa de centro da sala de estar – atingidas e danificadas pelo acidente - do que com a saúde de Nancy. Por fim, no lado masculino, os homens também representam duas típicas figuras humanas: uma,  a do homem com personalidade forte, mas que só se volta para o trabalho e presta pouca atenção à família, que é o caso de Alan; outra, a do homem que se dedica à família, mas que aprendeu a se alienar quase que completamente para suportar a personalidade dura e árida da esposa, representado por Michael.
            Egoísmo, frustações, desejos realizáveis e não realizáveis, o convívio harmônico em sociedade, o primitivismo das reações humanas e principalmente os motivos que fazem de uma relação uma situação absolutamente neurótica e à beira de um precipício, são os elementos que funcionam como pano de fundo da temática do filme.
            É interessante que a única personagem honesta do filme, por assim dizer, é Penelope, a qual - tal como a Penélope de Ulisses na “Odisséia” - espera o retorno do marido, com uma perspectiva sempre otimista. A Penelope do filme, escritora de livros sobre direitos humanos na África,  é a única  que demonstra mais preocupação com a situação de saúde de seu filho. Ambas as Penelopes têm uma mesma visão otimista, estão sempre esperando algo. Vivem o depois, não o agora.
            Exceção ao pequeno fastídio causado pelo inverossímil encontro entre os casais, bem como as repentinas saídas e retornos, os 80 minutos de filme valem  pelos diálogos muito bem produzidos e pela metáfora que traduzem, de fato, das personalidades e relacionamentos humanos caóticos que vivemos no dia-a-dia.

domingo, 3 de junho de 2012

Travessia


Travessia

“Ando nessa cidade por suas  ruas de pedra,
 O sol bate em minha cabeça cintilante como uma espada,
 E a tontura toma conta de mim.
 A praça inundada de árvores atrasa,
 Deliciosamente, meus passos para que eu a ame cada vez mais.

 Não vejo pedestres nem carros,
 Só figuras de “Pelegatta”.
 Paro para um refresco e um café,
 Enquanto, na velha estação de trem
 Aguardo o primeiro horário para me levar de volta desse sonho urbano.

 Um rapaz louro oferece velhos retratos citadinos.
 Escolho-os a dedo.
 Vem o trem; as pessoas amontoam-se, parte.
 Já sentado, observo tudo o que passa por suas janelas mágicas.

 Vai tudo nessa viagem,
 Como vai o trem rompendo pedregulhos,
 Afundando pelas planícies deste país majestoso,
 Colorido como o mar do caribe.

 Na próxima parada, descerei
 Para continuar minha vida,
 Sem sentido, como a janela do trem.
 As montanhas indicam apenas a cor e o rumo, sentido  nenhum.

 Na grande e bela casa no outeiro quero repousar, permanecer,
 Ver o mar e a solidão passar, enquanto passa a chuva e vem o sol".