Tarde de domingo em São Paulo. Depois das últimas gotas de chuva que escorriam pelas janelas e de uma corrida pelo Ibirapuera, volto e começo a planejar a semana que começa. Novo ciclo de ações. Domingo é sempre esse dia nostálgico e cheio de sensações, às vezes um tanto desagradáveis. Mais o domingo só é mesmo aceitável quando o sábado e principalmente, a noite de sábado, foi boa.
Não é mais possível refletir sobre o domingo como fizera em outros tempos, pois conforme evoluímos etária e subjetivamente, vai-se adquirindo um certo viço capaz de fazer enxergar outras realidades escondidas.
Não se vê mais a chuva ou a nuvem como antes, mas sim se vê "a chuva" e "a nuvem". É interessante, pois reflete um processo de perscrutação. Um rumo ao essencial, em poucas palavras.
Domingo é isso hoje em dia: um dia essencial.
O objetivo deste blog, além de descrever atividades cotidianas, em vários níveis culturais de meu interesse, tem por objetivo aproximar aqueles que são apreciadores da cultura em geral.
domingo, 18 de dezembro de 2011
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
A Banda De Möbius
No tempo de tanta vida,
Como vida antes,
Havia muito de mim,
Agora só há rompantes.
Cristalina era: a cor do mar
Como é o salgado suor
Que escorre pelo rosto
E que me pega de surpresa.
É um passado e futuro
Ou passado do futuro: o que será?
O carro passava e deixava seu rastro
Como deixou minha mãe aquelas roupas
[sobre a cômoda.
Poucos rastros de si restaram.
Havia pó na estrada
Que levava ao jardim primaveral
Onde crianças brincavam em balancês.
É um futuro e passado
Ou pretérito do passado: o que será?
A panela avizinhava o feijão que já queimava
Ela suava como operário sua em tarde de verão.
Eu (na mesa) comia, comia e comia.
A tarde se punha na Belém do norte
E meu norte se perdia em meu umbigo natal.
Bonitos seriam as mulheres se não fossem mães,
Como bonitos são os homens que são pais
De crianças fétidas que correm pelos corredores.
No velho prédio não há mais orquídeas,
Só samambaias que descem pelas escadas
Como jacarés em rios amazônicos.
É um presente e futuro
Ou futuro do presente: o que será?
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
pausa
Às vezes, paramos para reabastecer o combustível da vida... dando atenção apenas às coisas cotidianas, que são muitas e, às vezes, consativas, mas também muito compensadores, a depender do ânimo e da aprendizagem que adquirimos com elas. São as compras, os reparos na casa. Os simples detalhes, às vezes esquecidos: a luz que queimou, o assoalho que rachou...
Às vezes, não percebemos, que a beleza da vida está no descanso repousante de um grande dia, repleto de pequenas tarefas, que nos ocupam, até no trânsito congestionado que nos toma o tempo entre um compromisso e outro.
Às vezes, paramos para ver o gesto delicado na vendedora de flores, que nos confidencia um momento de felicidade pelo qual está passando, ou no amigo que nos brinda com um agradável sorriso e compreensão.
Como são importantes esses momentos de pausa, porque eles nos tornam mais humanos, eis que também mais voltados às nossos origens eminementemente irracionais e inconscientes. Tornam-nos mais voltados aos sentidos essenciais, ao tato com os objetos vivos, que nos propicia esta parte de tão essencial de nosso corpo, nossa mão.
São esses momentos que hoje mais aprecio; esses momentos em que sou mais feliz, eis que mais perto de mim mesmo.
Somos todos um pouco artífices de grandes construções, de grandes ideias, mas as mais importantes não estão fora, mas sim dentro. São esses pequenos momentos de solidão que nos tornam grandes, que constroem o mundo.
Às vezes, não percebemos, que a beleza da vida está no descanso repousante de um grande dia, repleto de pequenas tarefas, que nos ocupam, até no trânsito congestionado que nos toma o tempo entre um compromisso e outro.
Às vezes, paramos para ver o gesto delicado na vendedora de flores, que nos confidencia um momento de felicidade pelo qual está passando, ou no amigo que nos brinda com um agradável sorriso e compreensão.
Como são importantes esses momentos de pausa, porque eles nos tornam mais humanos, eis que também mais voltados às nossos origens eminementemente irracionais e inconscientes. Tornam-nos mais voltados aos sentidos essenciais, ao tato com os objetos vivos, que nos propicia esta parte de tão essencial de nosso corpo, nossa mão.
São esses momentos que hoje mais aprecio; esses momentos em que sou mais feliz, eis que mais perto de mim mesmo.
Somos todos um pouco artífices de grandes construções, de grandes ideias, mas as mais importantes não estão fora, mas sim dentro. São esses pequenos momentos de solidão que nos tornam grandes, que constroem o mundo.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
"Olhar de Menino"
Olhar de menino
“O edifício se misturava nos raios de sol
Que desciam e o cobriam completamente,
Nenhuma porta ou janela se lhes escapavam.
Tudo luz, muita luz naqueles quartos de hotel.
Um menino olhava pela janela
E via o mundo em suas linhas retas,
Vagando no meio da Baía da Guanabara.
Enquanto sua mãe dormia, cansada,
Ele via o mundo em novas formas,
Diferentes de quaisquer outras que já vira antes.
Nas pontas dos dedos, sem acordá-la, pegou uns trocados
Da bolsa da mãe, pendurada em uma cadeira...
Desceu, passando pelos amplos saguões de entrada,
E foi comprar espadas de Luz, vendidas na calçada.
Era o menino, procurando lutar, procurando viver,
Enquanto sua mãe dormia no quarto do hotel.
Ele vivia como lutadores antigos; era domador de leões.
Empinava o sabre pelas janelas
E a luz que dali refluía,
Misturada à luz do sol, ia até a baía
E quase iluminava o fundo do mar e seus peixes.
Aos poucos, a luz foi se espalhando e se refletia
[em tudo.
Toda a cidade, agora, estava envolvida pela luz do sabre
[daquele menino.
Tudo agora era a luz e a luz do menino e seu sabre
[eram tudo.
Sua mãe, de repente, acorda e a luz subitamente se esvai.
O menino esconde o sabre em uma mala de viagem,
A luz se apaga no quarto de hotel, no prédio e na
[cidade inteira.
Em segundos, falta luz em tudo...
A mãe tira uma vela da valise e a acende.
Vem a luz e, por sua sombra de luminosidade,
Vê-se o triste olhar daquele menino,
Que agora, deitado na cama, olha fixamente para a janela
[escura.
E já não vê mais nada.
Fecha os olhos e já não vê mais nada...”
domingo, 11 de dezembro de 2011
"A pela que habito", de Pedro Almodovar.
Ao assistir ao filme de Pedro Álmodovar na semana passada, fiquei pensando sobre o mesmo. Ele se supera. É um filme muito bom e instigante. Um pouco incômodo, com certeza, mas nos pega de surpresa. É um misto de drama, romance, suspense e filme de terror "noir". Há muitas cores, como aliás é típico em Álmodovar, que reflete muito a Espanha e suas cores. Há muito de conflitos e a discussão da identidade sexual: o que é ser homem, o que é ser mulher. A violência pode inteferir em algo eminentemente humano? É possível transpor essas barreiras?
Fala também sobre os limites da ciência e até que ponto estamos preparados e dispostos a enfrentar suas fronteiras.
Ele parece não acreditar muito no homem, por conta talvez da natureza deste, eminentemente animal. Quando se descortina a esperança, ela a corta como se estivesse a usar um adaga muito bem afiada.
Álmodovar consegue, como ninguém, cristalizar em pouco tempo de filme, que é longo mas passa como um relâmpago, um mundo em poucas cenas. Quando termina o filme, sai-se com expectativa de ver mais, com a impressão de que se ficou sem respirar. Um breve e feliz intervalo na vida !
Fala também sobre os limites da ciência e até que ponto estamos preparados e dispostos a enfrentar suas fronteiras.
Ele parece não acreditar muito no homem, por conta talvez da natureza deste, eminentemente animal. Quando se descortina a esperança, ela a corta como se estivesse a usar um adaga muito bem afiada.
Álmodovar consegue, como ninguém, cristalizar em pouco tempo de filme, que é longo mas passa como um relâmpago, um mundo em poucas cenas. Quando termina o filme, sai-se com expectativa de ver mais, com a impressão de que se ficou sem respirar. Um breve e feliz intervalo na vida !
sábado, 10 de dezembro de 2011
Poema "Ilusão Óptica"
Ilusão óptica
“Escrever é tédio
Que não quer partir,
Deixar-nos em paz.
Vem e vai; a alma em alvoroço.
Escrever palavras que não são palavras
Para quem não quer ler
E que não existe mesmo.
A humanidade é uma ilusão:
Somos todos feixes de luz no Atlântico.
Somos todos ilusões ópticas
De um grande telescópio na Califórnia.
Escritor é quem nunca escreveu,
É quem não escreve mais,
Porque já escreveu a palavra mágica:
No seio eterno de sua a mãe”.
Poema "Noite de Sábado"
Queria estabelecer novas fronteiras,
Discutir tratados,
Ou voar para Cingapura
E fundir corporações.
Queria muita coisa e muito mais,
Mas estou só aqui comigo hoje, em noite de sábado.
Não sei se posso concluir algo,
Só refletir já não dá.
Construir alguma coisa sólida talvez.
O barulho da noite confunde-me,
Vejo sombras que me querem devorar,
Olho na boca do meu cachorro e vejo o mundo
Iluminado que transborda em mim.
A árvore de natal do parque apresenta suas luzes,
As avenidas brilham em São Paulo, é noite de sábado.
Chega de mães no Ibirapuera,
Avante à opressão dos seres ignotos.
Vamos todos nos reunir nas lápides da Consolação.
Sentar no seio de marcianas,
Devorar camelos no Egito.
Fundo-me ao nada e vejo a formiga que corre pela minha perna, coceira.
Apago e acendo a luz em frênito de loucura.
Já não posso mais e a tontura já adormece em meu ser,
Chamando-me para repousar em algum lugar.
Fico com minhas ilusões e esperanças
Em noite de sábado que não quer acabar.
"Poema de Muitos Séculos"
Poema de muitos séculos
“O tempo esvai-se nas ruas
Estreitas como o coração do Inquisidor,
Lânguido como o debruçar-se nas varandas
De Cartagena de Índias.
Índios que se foram e negros que vieram,
Desterrados d ‘África para
Viverem jungidos às garras de malfeitores
E comerciantes cobiçosos.
Tempos revoltos eram aqueles,
Drake e suas caravelas em alto-mar
A observar as muralhas
E a liberdade custou muito botim.
Donzelas, viúvas perdidas,
Moças violadas,
Vagam por vias estreitas
E seus espíritos seguem atrás.
Um café, um ‘helado’,
Recordações e filmagens
Ao mesmo tempo, como um caracol,
Entre o passado e o presente”.
(Cartagena , 31/07/11).
Clarice Lispector
Estou lendo a biografia de Clarice Lispector, escrita por Benjamim Moser. Já havia lido muitas obras da escritora: Perto do Coração Selvagem, a Hora da Estrela, a Paixão segundo G.H., Laços de Família e Legião Estrangeira, mas conhecer a história desta que é, sem dúvida, uma das maiores, senão a maior escritora brasileira de todos os tempos - para mim, com certeza é - vale a pena. É difícil definir Clarice, mas um ponto fundamental representa toda a sua obra: o conflito entre o humano e o animal que existe em todos os seres humanos. Ela tenta o tempo todo essa perspectiva de equilíbrio e acho que conseguiu muito bem. Não demonstra como atingi-lo, até porque não seria o objetivo artístico, mas deslumbrantemente nos deleita.
"Ausência", por Vinícius de Moraes
"Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos
no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono
desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada"
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos
no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono
desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada"
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