quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Domingo Universal



“Domingo Universal”

                                           Homenagem a Machado de Assis



Há um domingo universal,
que abarca a todos e a tudo indistintamente,
desde o amarelo ao azul;
a todos é como manta carinhosa.
Aquele domingo lindo, muito claro,
em que tudo é sofreguidão,
e rosas da primavera são mais rosas.
Oh, aquele domingo universal!
quando o mar se estende pela praia sem fim.
Há dias menos e outros mais,
quando nos sentimos, nuns, menos de nós
e, em outros, muito mais.
O domingo universal é esse um,
em que o pouco se acrescenta para somar mais.
É uma zona indefinida de totalidade,
semelhante ao frescor do mar,
quando a brisa tépida não apaga o calor,
convidando a um contagiante mergulho. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Soneto a Gonçalves Dias



Soneto a Gonçalves Dias


Sabiá, sabiá, minha terra tem palmeiras,
 Lá, na alcova, já não há.
 Minha terra é muito bonita,
 Há poços d’água para eu tomar.

Minha terra, minha terra, como é bela
E lá não há prisão.
Sabiá, sabiá, minha terra tem palmeiras,
Coqueirais e tudo o mais, só para amar.

Carros, bicicletas e confusão completa,
 Lá na minha terra é tudo muito misturado.
 Não há metrô, há corrupção.
Sabiá, sabiá, minha terra tem palmeiras.

Largo tudo e vou para lá,
Sei lá se devo, mas vou
Para encontrar alguém para ser meu par.

Os passeios são completos se te vir lá
Porque minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá”.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Sociedade Moderna e Machu Pichu



                        A visita às ruínas em Cuzco e Machu Pichu, no Peru, permite uma reflexão comparativa entre o modelo de sociedade que se tem hoje no mundo dito civilizado e aquela em que os incas se organizavam.
                        Confesso que ao ler Platão, principalmente, seu livro “República”, pensava ser artificial o modelo ali preconizado baseado principalmente na  propriedade coletiva, na supressão  ou diminuição  da família como unidade fundamental da sociedade, eugenia, etc. A crítica à poesia que formula, ainda que não seja tão absoluta assim, como se sabe, sempre me aflingiu por sua artificialidade. 
            Surpreendi-me, contudo, ao constatar que era exatamente assim que os incas viviam, ou seja, tudo era coletivo e sem vestígios de literatura. Talvez oral apenas.
E a partir daí e, é claro, com um profundo  sentimento  de integração  com a natureza, construíram  uma sociedade avançadíssima para a época. Não havia números significativos de roubos, assassinatos, adultérios  e os governantes trabalhavam para o bem comum. Onde falhamos? Em que podemos apreender com eles?
                        Primeiro: nosso tipo de sociedade baseia-se em modelos que vêm dos egípcios, gregos e indu-persas, em que o culto ao luxo, o lucro e os conflitos bélicos eram a tônica.  Está, assim, em nosso DNA social - se é que se pode cunhar o termo dessa forma -,  mas reflete bem o que quero dizer, a raiz de nossos problemas.
                        Segundo: nosso individualismo sem o qual não podemos viver, é também a causa de nossos problemas sociais. No fundo, Karl Marx tinha razão, pois em última análise o comunismo seria  realmente uma sociedade ideal. Pena que utópica, pois longe  de nossos paradigmas históricos. Talvez, o aproveitamento de parte do modo de vida da sociedade inca já nos servisse.
                        Não podemos viver sem o individualismo, que nos é tão caro, mas se intenção é alcançar o progresso  socialmente digno e integrado com a natureza, o indivíduo tem que ceder ao coletivo.

sábado, 28 de julho de 2012

"Minha Pasárgada"


Minha Pasárgada

                                   Homenagem à Manoel Bandeira.

“Eu queria dormir
E acordar em algum lugar,
Sem intervalos.
Onde não houvesse mais solidão,
Onde pudesse amar plenamente,
Sem medo ou desconfiança.
Onde tivesse amigos realmente de mim,
E não de outras coisas.
Onde os parentes me escutassem e
E saciassem muito mais do que suas sedes.
Onde as pessoas não andassem em círculos,
Nem mais falassem sozinhas.
E que rezassem para um Deus interior.

Viveria para sempre nesse lugar,
Onde houvesse rios permanentes,
Onde os animais rissem
Pelo simples fato de serem respeitados como tal
E os homens chorassem
Pelo simples fato de pisarem numa flor”.


quarta-feira, 11 de julho de 2012


                       Me artomentava uma sensação de inutilidade, que nos acompanha quando não há mais saída para  algum  fim qualquer e indesejado.
                       A      vida vai passando lentamente; vão sumindo os dias, lentamente, e  percorremos rápido esse caminho que nos leva a todos.
                       Nunca tive pensamentos  cinzentos sobre a vida. Eles foram surgindo depois dos 40, quando a maior parte do tempo parece já ter escoado, quando a maior parte das flores do jardim já se extinguiram.  Os dias então passam a ter uma beleza singular, como se cada dia, cada hora ou minuto fossem um breve instante num parque de diversões, uma mordida no algodão doce ou um beijo úmido que nos devora.
                  Esse     sem sentido do mundo que nos rodeia e a humanidade não podem mesmo deixar saudades. Mas por que choramos então? Choramos por nós mesmos, por esses dias perdidos, pelos parques e algodões doces que não vamos aproveitar depois.
                       Choramos      por  não podermos mais estender por dias afora, eternamente, nossos desejos mais explícitos e também os mais recônditos.  Choramos porque não aproveitaremos mais o sol que queima e se retira, nem a chuva que cai e depois evapora.
                        Apesar de           muitas religiões dizerem que não se pode chorar, choramos porque somos animais e pecadores.
                        Viver inutilmente um dia   após o outro é a única conclusão sábia a que alguém pode chegar. Quantos tratados ou sessões de psicoterapia desperdiçadas  face a tão óbvia conclusão.
                        Somos todos    seres     racionais do não óbvio. Vagamos todos com uma pretensa lanterna enorme em um corredor escuro e muito maior do que imaginávamos. Somos incapazes de viver apenas !
                       

domingo, 1 de julho de 2012

"As quatro virtudes platônicas"


“As quatro virtudes, indicadas por Platão, na República”


As quatro virtudes cardeais da cidade são: a sabedoria, a coragem, a temperança e a justiça.
            A sabedoria  e a justiça situam-se na classe governante, a coragem na classe dos guerreiros e a temperança deve ocorrer em todas as classes.
            A justiça, segundo Platão, é o princípio segundo o qual “cada um deve ocupar-se de uma função na cidade, aquela para a qual a sua natureza é mais adequada”; “além disso, deve cuidar de tarefa própria”; “não se imiscuindo em outras tarefas”; “desempenhar cada um a sua tarefa” e “a posse do que pertence a cada um e a execução do que lhe compete constituem a justiça”.
            Portanto, segundo Platão, cada uma das classes deve executar a tarefa que lhe é própria, sendo que quando um homem tentar exercer os cargos correspondentes às demais classes, esta será a maior confusão  e a maior ruína da cidade. Ao contrário, o exercício de suas próprias tarefas pelas classes dos negociantes, auxiliares e guardiões, por exemplo, será a maior prova de justiça.
            È a justiça, portanto, que funda as outras quatro virtudes: a cidade será justa,  quando houver  três tipos de natureza, que executam,cada um a tarefa que lhe é própria, tudo isso de forma temperante, corajosa e sábia.
            Algumas palavras deve ser ditas ainda sobre as três virtudes seguintes: sabedoria, coragem e temperança.
            A sabedoria, conforme dito, é própria da classe dos governantes, sendo a capacidade de deliberação (não sobre pormenores, mas sobre a totalidade; apenas aquele que tiver o entendimento, não apenas a fé ou a opinião, é sábio).
            A coragem significa uma opinião reta acerca dos assuntos que possam nos causar perigo.
            A temperança é uma espécie de ordenação, constituindo um domínio dos prazeres e desejos, existindo no homem que é “senhor de si”.
            As 4 virtudes constituem, assim, o fundamento de harmonia que deve reger a cidade e consolidar a sua “unidade”.
           

quarta-feira, 20 de junho de 2012

"Deus da Carnificina"




           Assisti ao filme “Deus da Carnificina”, de Roman Polanski. Antes de assisti-lo já sabia que se tratava de um filme que iria metaforizar a sociedade, mas qual não foi a minha surpresa ao perceber que o filme faz isso de uma maneira aparentemente singela, mas profundamente verdadeira.
            Em síntese, a história do filme é a de dois casais que se encontram para discutir uma briga que envolvera dois meninos, cada um deles filho de um dos casais. A aparência de cordialidade entre os casais esconde toda uma rede de sentimentos e pensamentos escusos e escondidos, os quais aflora aos poucos. Há ainda a dinâmica da personalidade de cada um dos quatro personagens e dos casais.
            Em Nova York, o casal Nancy e Alan Cowan (Kate Winslet e Christoph Waltz) vai até a casa de Penelope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly). As conversas revelam inicialmente a faceta sociável dos personagens, mas, em seguida, emerge o lado escuro de cada um deles. Nancy é, de início, muito sociável, educada e simpática. Alan, frio, preocupando-se o tempo todo em falar ao celular para resolver negócios da empresa em que trabalha como advogado. Penélope - extremamente racional e rígida - é a mais agressiva dos quatro. Por último, Michael - o mais relaxado dos quatro - é um típico bonachão, por assim dizer. Cada um deles é um arquétipo de quatro personalidades humanas.
          A personagem Nancy tipifica a mulher falsa, que sempre tem uma palavra simpática e agradável para dizer, mas que, no fundo, não pensa em nada disso e vive em conflito com o marido, que julga distante. Sofre ainda de problemas de saúde em razão desse conflito que não se resolve. Interessante, neste aspecto, que, no filme, Nancy vomita, ao não agüentar mais as inúmeras ligações de trabalho recebidas pelo marido, distante da situação vivida ali. Por outro lado, tem-se Penelope, como a politicamente correta,  que pretende fazer a conciliação dos meninos, mas desde que eles “entendem honestamente que devem se reconciliar, não admitindo que os pais do agressor forcem o garoto a isso”. Dominadora em relação ao marido. Aparentemente preocupada com a situação humana de cada um, vindo, contudo, à tona seu egoísmo, quando, após o vômito de Nancy, preocupa-se muito mais com as revistas raras dispostas na mesa de centro da sala de estar – atingidas e danificadas pelo acidente - do que com a saúde de Nancy. Por fim, no lado masculino, os homens também representam duas típicas figuras humanas: uma,  a do homem com personalidade forte, mas que só se volta para o trabalho e presta pouca atenção à família, que é o caso de Alan; outra, a do homem que se dedica à família, mas que aprendeu a se alienar quase que completamente para suportar a personalidade dura e árida da esposa, representado por Michael.
            Egoísmo, frustações, desejos realizáveis e não realizáveis, o convívio harmônico em sociedade, o primitivismo das reações humanas e principalmente os motivos que fazem de uma relação uma situação absolutamente neurótica e à beira de um precipício, são os elementos que funcionam como pano de fundo da temática do filme.
            É interessante que a única personagem honesta do filme, por assim dizer, é Penelope, a qual - tal como a Penélope de Ulisses na “Odisséia” - espera o retorno do marido, com uma perspectiva sempre otimista. A Penelope do filme, escritora de livros sobre direitos humanos na África,  é a única  que demonstra mais preocupação com a situação de saúde de seu filho. Ambas as Penelopes têm uma mesma visão otimista, estão sempre esperando algo. Vivem o depois, não o agora.
            Exceção ao pequeno fastídio causado pelo inverossímil encontro entre os casais, bem como as repentinas saídas e retornos, os 80 minutos de filme valem  pelos diálogos muito bem produzidos e pela metáfora que traduzem, de fato, das personalidades e relacionamentos humanos caóticos que vivemos no dia-a-dia.

domingo, 3 de junho de 2012

Travessia


Travessia

“Ando nessa cidade por suas  ruas de pedra,
 O sol bate em minha cabeça cintilante como uma espada,
 E a tontura toma conta de mim.
 A praça inundada de árvores atrasa,
 Deliciosamente, meus passos para que eu a ame cada vez mais.

 Não vejo pedestres nem carros,
 Só figuras de “Pelegatta”.
 Paro para um refresco e um café,
 Enquanto, na velha estação de trem
 Aguardo o primeiro horário para me levar de volta desse sonho urbano.

 Um rapaz louro oferece velhos retratos citadinos.
 Escolho-os a dedo.
 Vem o trem; as pessoas amontoam-se, parte.
 Já sentado, observo tudo o que passa por suas janelas mágicas.

 Vai tudo nessa viagem,
 Como vai o trem rompendo pedregulhos,
 Afundando pelas planícies deste país majestoso,
 Colorido como o mar do caribe.

 Na próxima parada, descerei
 Para continuar minha vida,
 Sem sentido, como a janela do trem.
 As montanhas indicam apenas a cor e o rumo, sentido  nenhum.

 Na grande e bela casa no outeiro quero repousar, permanecer,
 Ver o mar e a solidão passar, enquanto passa a chuva e vem o sol".

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Filme "O exótico hotel Marigold"

      Gostei muito do filme "O exótico hotel Marigold". Apreciei-o nem tanto pela tentativa do enredo de resolver a vida dos personagens romanticamente, mas muito mais pela reflexão acerca da falta de sentido da vida e da possibilidade de se viver apenas.
      Resumidamente, o filme trata da mudança de alguns aposentados ingleses para a Índia, cada um possuindo um motivo particular para a viagem: problemas financeiros, realização de uma cirurgia, reencontro com um parceiro do passado,etc.  Todos se encontram no Hotel  Marigold, antiga construção decadente, no melhor estilo indiano, e que serve como palco para as diferentes características desses singulares personagens, que aos poucos vão se conhecendo uns aos outros, em meio à adaptação paulatina à India e ao próprio hotel.
      O fio condutor que percorre todas as histórias é o reencontro de cada um com o seu ser mais interior, uma verdadeiro processo de individuação. A libertação do passado, não como esquecimento puro e simples, mas como superação mediante o aprendizado ínsito às experiências boas e ruins vividas, é outra mensagem muito presente. As vivências boas do passado também podem aprisionar o ser. Às vezes, vive-se na ilusão de resgatar o que se viveu, sendo que as vivências são irrepetíveis. Outras diferentes, boas, ruins ou até melhores se seguirão. A felicidade do futuro é alcançável pela vivência do presente independetemente do passado, o que é muito difícil, mas como retrato poético bonito do filme, não deixa de ser uma verdade.
      Santo Agostinho já dizia, em "Confissões": não existe passado, nem futuro como categorias temporais, apenas como referências do presente, que em sí é apenas um átimo de segundo, nada mais.
      Uma das personagens diz, em determinado momento: " o que é importante é acordar de manhã e ter a convicção de se estar pronto para realizar o melhor ao que se propôs naquele dia".  O que é isso, se não, como disse, viver a existência apenas, da melhor maneira possível.
      Filme aparentemente leve, com alguns clichês; perdoáveis, contudo, diante da grandeza de sua mensageme e da exuberância do cenário coloridíssimo da Índia.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

" A separação", filme iraniano.

    Gostei muito deste filme. Em resumo, trata do drama vivido por uma iraniana, que decide, juntamente com o marido, deixar o Irã para viver no exterior, obtendo, para isso, um visto de saída do país, válido por período determinado. Assim que conseguem o visto, o marido desiste de viajar, porque seu pai adoece gravemente de  "Alzeimer" e necessita de seus cuidados. A esposa não aceita a decisão e pede o divórcio, já que o marido, além de não querer mais deixar o país, não permite ainda que a filha comum do casal, com 11 anos de idade, acompanhe a mãe. A partir daí, a esposa deixa a casa e o marido contrata uma empregada, que está grávida,  para, principalmente, cuidar do pai enfermo. Em seguida, surge um acontecimento inesperado que cria uma desavença entre o marido e a empregada, que coloca ambos em conflito. Basicamente, esta deixa o apartamento por um breve momento, o marido chega em casa e encontra o pai caído ao chão e quase morto. Ela retorna, ele a acusa de abandono do pai e de um possível furto, ela se desespera, ambos discutem, ela é empurrada, cai e, depois, descobre-se que perdeu o bebê. Há um processo judicial, que traz à tona uma série de acontecimentos que podem arruinar a vida de um ou de outro.
   O filme é muito bom, nada está em excesso. Tudo compõe uma trama bem delineada. Em um primeiro plano, há basicamente um processo judicial e um jogo bastante interessante de descobrimento de provas e eventos, que vão  configurando o desenlace do processo. Há um jogo de esconde-esconde, pois não se sabe exatamente qual fora a intenção do marido, ao agredir a empregada, motivo da acusação que sofre.
  Há também uma ligeira alusão aos limites da responsabilidade penal, pois o marido, mesmo sabendo da condição de grávida da empregada, conforme é revelado, em razão de seu estado emocional bastante alterado por encontrar seu pai quase morto e caído ao chão, no momento da agressão, não se detém sobre a condição de grávida, e empurra a empregada. Poderia ser responsabilizado, mesmo sabendo da gravidez, diante de seu estado de ânimo no momento da agressão?
  Há um outro plano, mais pronfundo, em que se pode discutir os fatores inconscientes presentes em cada um dos personagens. Primeiro, em que medida o cuidar do pai para não deixar o país, por parte do marido, ou, não deixar o país para ficar perto da filha e aguardar um possível reatamento com o marido, por parte da esposa, não seriam formas de se estar fugindo do desejo de viver algo novo e imprevível. Segundo, como essa atividade de furgir do desejo pode, sob a ótica do marido, provocar acontecimentos inesperados e erros que se vão repetindo como uma lei de confirmação neurótica daquilo de que se está fugindo, em verdadeira compulsão.
  Seja pela precisão pela qual os fatos vão se apresentando como prova de um fato objetivo e como as nuances do mesmo são fundamentais para relativizar qualquer conclusão objetiva do ponto de vista jurídico, seja pelas conexões causais inerentes ao convívio entre seres humanos que nos colocam desesperadamente na dependência uns em relação aos  outros, este filme é magnífico e merece ser visto".

domingo, 1 de janeiro de 2012

Buenos Aires, de Silvio Gemaque

"Ruas de calçadas largas que se estendem
Ao Rio e que fluem inconstantemente
De pedestres apressados a comer "croissants".
Seus prédios de estilo francês
Lembram um glorioso passado
Que é presente para mim,
E a todos que se estendem e deitam
Em seus leitos portenhos.

Curiosamente o ar nostálgico passou
E não deixou nem rastro como deixa o barco
Que passa pelo Rio De la Plata
E que flutua em minha imaginação,
Deixando fumaça, espuma e lembrança.

Não há mais estilo,
Mas há propósitos que se encontram
Na confecção do açúcar do café,
Na geleia sobre a mesma:
´Made in Argentina´.

Não sei reconhecer a semelhança
Entre as cidades, só as diferenças.
Há um pouco de nada em tudo,
Mas o pó da geladeira do hotel voa
Enquanto em Buenos Aires já não toca mais a
                                                    [a canção.
As pessoas dançam, apenas, uma música
                                                    [silenciosa.
Que vai diretamente a seus ouvidos
Surdos de tudo, presos ao nada.
Dançam incesantemente, girando e girando.
O Tango passou, agora os cegos se levantam.
É hora de partir como partiu o som agudo
Que tocava nas vitrolas ´De La Boca´".

"Song of myself (canção para mim mesmo)" , de Walt Whitman.

(...) 32.
"Acho que eu poderia ir viver com os animais, eles são tão plácidos e independentes,
Paro e olho para eles durante muito e muito tempo.

Eles não suam nem lamentam de sua condição,
Não ficam acordados no escuro chorando por seus pecados,
Não me deixam enjoado discutindo seu dever diante de Deus,
Nenhum està insatisfeito, nenhum está enlouquecido com a mania de pssuir coisas,
Nenhum se ajoelha diante de outro, nem de seus ancestrais que viveram há milhares
                de anos,
Nenhum é respeitável  ou infeliz em toda a terra.

Então eles mostram seu parentesco comigo e eu o aceito,
Eles me trazem sinais de mim mesmo, exibem-nos com clareza em sua posse,
Onde será que encotraram esses sinais,
Será que passei por lá há muito tempo e negligentemente os deixei cair?

Eu seguia adiante então, como agora e sempre,
Juntando e mostrando sempre mais e com velocidade,
Infinito e omniforme, e semelhante a esses entre eles,
Pouco seletivo em relação àqueles que alcançam minhas lembranças,
Escolhendo aqui um que eu amo e seguindo com ele como um irmão.

Uma gigantesca beleza de corcel, vigoroso e sensível âs minha carícias,
Cabeça de testa alta, orelhas bem separadas,
 Patas lustrosas e ágeis, cauda se arrastando no chão,
Olhos cheios de cintilante travessura, orelhas bem talhadas, movendo-se com
                 flexibilidade.

Suas narinas se dilatam quando meus calcanhares o abraçam,
Seus membros bem torneados tremem de prazer quando corremos e depois
                voltamos.
Eu te uso um instante, depois abro mão de ti, corcel,
Que necessidade tenho de teus passos se eu mesmo galopo mais longe?
Mesmo sentado ou sem me mexer passo mais rápido que tu".