Assisti ao filme “Deus da
Carnificina”, de Roman Polanski. Antes de assisti-lo já sabia que se tratava de
um filme que iria metaforizar a sociedade, mas qual não foi a minha surpresa ao
perceber que o filme faz isso de uma maneira aparentemente singela, mas
profundamente verdadeira.
Em síntese, a história do filme é a
de dois casais que se encontram para discutir uma briga que envolvera dois
meninos, cada um deles filho de um dos casais. A aparência de cordialidade
entre os casais esconde toda uma rede de sentimentos e pensamentos escusos e
escondidos, os quais aflora aos poucos. Há ainda a dinâmica da personalidade de
cada um dos quatro personagens e dos casais.
Em Nova York, o casal Nancy
e Alan Cowan (Kate Winslet e Christoph Waltz) vai até a casa de Penelope (Jodie
Foster) e Michael (John C. Reilly). As conversas revelam inicialmente a faceta
sociável dos personagens, mas, em seguida, emerge o lado escuro de cada um
deles. Nancy é, de início, muito sociável, educada e simpática. Alan, frio,
preocupando-se o tempo todo em falar ao celular para resolver negócios da
empresa em que trabalha como advogado. Penélope - extremamente racional e
rígida - é a mais agressiva dos quatro. Por último, Michael - o mais relaxado
dos quatro - é um típico bonachão, por assim dizer. Cada um deles é um
arquétipo de quatro personalidades humanas.
A personagem Nancy tipifica a mulher
falsa, que sempre tem uma palavra simpática e agradável para dizer, mas que, no
fundo, não pensa em nada disso e vive em conflito com o marido, que julga
distante. Sofre ainda de problemas de saúde em razão desse conflito que não se
resolve. Interessante, neste aspecto, que, no filme, Nancy vomita, ao não
agüentar mais as inúmeras ligações de trabalho recebidas pelo marido, distante
da situação vivida ali. Por outro lado, tem-se Penelope, como a politicamente
correta, que pretende fazer a
conciliação dos meninos, mas desde que eles “entendem honestamente que devem se
reconciliar, não admitindo que os pais do agressor forcem o garoto a isso”.
Dominadora em relação ao marido. Aparentemente preocupada com a situação humana
de cada um, vindo, contudo, à tona seu egoísmo, quando, após o vômito de Nancy,
preocupa-se muito mais com as revistas raras dispostas na mesa de centro da
sala de estar – atingidas e danificadas pelo acidente - do que com a saúde de
Nancy. Por fim, no lado masculino, os homens também representam duas típicas
figuras humanas: uma, a do homem com
personalidade forte, mas que só se volta para o trabalho e presta pouca atenção
à família, que é o caso de Alan; outra, a do homem que se dedica à família, mas
que aprendeu a se alienar quase que completamente para suportar a personalidade
dura e árida da esposa, representado por Michael.
Egoísmo, frustações, desejos realizáveis
e não realizáveis, o convívio harmônico em sociedade, o primitivismo das
reações humanas e principalmente os motivos que fazem de uma relação uma
situação absolutamente neurótica e à beira de um precipício, são os elementos
que funcionam como pano de fundo da temática do filme.
É interessante que a única
personagem honesta do filme, por assim dizer, é Penelope, a qual - tal como a
Penélope de Ulisses na “Odisséia” - espera o retorno do marido, com uma
perspectiva sempre otimista. A Penelope do filme, escritora de livros sobre
direitos humanos na África, é a única que demonstra mais preocupação com a situação
de saúde de seu filho. Ambas as Penelopes têm uma mesma visão otimista, estão
sempre esperando algo. Vivem o depois, não o agora.
Exceção ao pequeno fastídio causado
pelo inverossímil encontro entre os casais, bem como as repentinas saídas e
retornos, os 80 minutos de filme valem
pelos diálogos muito bem produzidos e pela metáfora que traduzem, de
fato, das personalidades e relacionamentos humanos caóticos que vivemos no
dia-a-dia.
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