Gostei muito deste filme. Em resumo, trata do drama vivido por uma iraniana, que decide, juntamente com o marido, deixar o Irã para viver no exterior, obtendo, para isso, um visto de saída do país, válido por período determinado. Assim que conseguem o visto, o marido desiste de viajar, porque seu pai adoece gravemente de "Alzeimer" e necessita de seus cuidados. A esposa não aceita a decisão e pede o divórcio, já que o marido, além de não querer mais deixar o país, não permite ainda que a filha comum do casal, com 11 anos de idade, acompanhe a mãe. A partir daí, a esposa deixa a casa e o marido contrata uma empregada, que está grávida, para, principalmente, cuidar do pai enfermo. Em seguida, surge um acontecimento inesperado que cria uma desavença entre o marido e a empregada, que coloca ambos em conflito. Basicamente, esta deixa o apartamento por um breve momento, o marido chega em casa e encontra o pai caído ao chão e quase morto. Ela retorna, ele a acusa de abandono do pai e de um possível furto, ela se desespera, ambos discutem, ela é empurrada, cai e, depois, descobre-se que perdeu o bebê. Há um processo judicial, que traz à tona uma série de acontecimentos que podem arruinar a vida de um ou de outro.
O filme é muito bom, nada está em excesso. Tudo compõe uma trama bem delineada. Em um primeiro plano, há basicamente um processo judicial e um jogo bastante interessante de descobrimento de provas e eventos, que vão configurando o desenlace do processo. Há um jogo de esconde-esconde, pois não se sabe exatamente qual fora a intenção do marido, ao agredir a empregada, motivo da acusação que sofre.
Há também uma ligeira alusão aos limites da responsabilidade penal, pois o marido, mesmo sabendo da condição de grávida da empregada, conforme é revelado, em razão de seu estado emocional bastante alterado por encontrar seu pai quase morto e caído ao chão, no momento da agressão, não se detém sobre a condição de grávida, e empurra a empregada. Poderia ser responsabilizado, mesmo sabendo da gravidez, diante de seu estado de ânimo no momento da agressão?
Há um outro plano, mais pronfundo, em que se pode discutir os fatores inconscientes presentes em cada um dos personagens. Primeiro, em que medida o cuidar do pai para não deixar o país, por parte do marido, ou, não deixar o país para ficar perto da filha e aguardar um possível reatamento com o marido, por parte da esposa, não seriam formas de se estar fugindo do desejo de viver algo novo e imprevível. Segundo, como essa atividade de furgir do desejo pode, sob a ótica do marido, provocar acontecimentos inesperados e erros que se vão repetindo como uma lei de confirmação neurótica daquilo de que se está fugindo, em verdadeira compulsão.
Seja pela precisão pela qual os fatos vão se apresentando como prova de um fato objetivo e como as nuances do mesmo são fundamentais para relativizar qualquer conclusão objetiva do ponto de vista jurídico, seja pelas conexões causais inerentes ao convívio entre seres humanos que nos colocam desesperadamente na dependência uns em relação aos outros, este filme é magnífico e merece ser visto".
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